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Grande Entrevista a: Miguel Linhares (Manifesto, Beyond Confrontation. Musicofilia)


1.Quando começou a paixão pela música?
Bem, na realidade começou na infância, com o conservatório e a ouvir às escondidas as K7´s do meu irmão. Mas posso dizer que o ponto de viragem e de afirmação -enquanto adolescente - foi por volta dos 13 anos. Guardo religiosamente a 1ª K7 - trazida dos EUA pelo meu irmão em 1992 - o Master of Puppets. Basicamente foi esta K7 que me estragou a vida!
A chegada da TV Cabo e, consequentemente, da MTV e dos vários programas de rock e metal - como o Headbangers Ball - alimentaram o incêndio. [Estamos a falar de uma altura em que não havia internet, e as coisas só chegavam cá por algumas revistas inglesas e espanholas que haviam nas bancas e pelos Zines. Nada mais.]

2. Foi muito depois disso que surgiu a vontade de fazer parte de uma banda?
Pouco depois, em 1993, eu e o Paulo Sousa (Sissinho) já falávamos nisso, e em 1994 começámos a aprender a tocar instrumentos. Eu bateria, ele guitarra. "Obrigámos" o Freddy Duarte a aprender a tocar baixo e formámos os Shtottoff, uma das bandas mais estúpidas que alguma vez poderás ouvir! Mas que ainda hoje adoramos. E fartamo-nos de rir.

3. Quais as melhores memórias dos teus tempos ingénuos com a primeira banda?
Era isso mesmo, ingenuidade. Rebeldia, irreverência, desconhecimento. Divertíamo-nos imenso e abusávamos um pouco do néctar de Baco. Adorávamos, também, a Deusa Ninkasi...
Havia sonhos, muitos.
Fez-se amigos. Poucos, mas bons.

4. Quando te deparaste com o cenário musical da tua época, sentiste necessidade de mudar alguma coisa?
Julgo que essa consciência só despertou em mim um pouco mais tarde, por volta de 1997, altura em que se formou os Manifesto. Foi quando começámos a perceber que tínhamos de ser proactivos para que algo de mais interessante pudesse ocorrer para os músicos jovens amadores. A realidade é que o cenário musical entre 1994 e 1998 era muitíssimo interessante, muito mais do que agora. Mas sentíamos que podíamos fazer mais. Fomos nos tornando, lentamente, em produtores também.

5. Quais foram as bandas que, no teu parecer, mais influenciaram a música alternativa na ilha?
Chilli Mozart e a "versão 1.0" dos Enuma Elish...
Nos últimos 5 anos, os Anomally.

6. Consegues nomear algumas bandas regionais que te levaram a seguir o caminho musical que seguiste?
De bandas regionais, talvez só mesmo as duas primeiras que referi no ponto anterior e, claro, os Morbid Death.

7. E em relação a bandas internacionais. Quais eram as grandes bandas da "cena" na altura?
Manifesto c/ Miguel Newton (Mata-Ratos) @ Festival Acção Directa 2004
Sepultura e Pantera encabeçavam uma lista extensa demais para colocar aqui! Mas referindo só algumas: Machine Head, Metallica, Megadeth, Guns n´ Roses, Kreator, Slayer, Exodus, Death, Obituary, Paradise Lost, Carcass... tantas outras.
Claro que estamos a falar do tempo da explosão do grunge e da cena de Seattle, portanto este movimento era muito forte na altura e também teve impacto nesta geração: Nirvana, Alice in Chains, Stone Temple Pilots, Pearl Jam, Soundgarden, Smashing Pumpkins...

8. Como eram os concertos na altura, em termos de adesão do público?
Centenas de pessoas, raramente os concertos eram só para os amigos. Cheguei a tocar para mais de um milhar... Sim, aqui na ilha e com o tempo a chuviscar um pouco... Acho que ainda tenho um VHS com isso.

9. O que achas que mudou desde então?
A minha geração envelheceu!
A sério, julgo que as coisas são de modas e a verdade é que a grande maioria das pessoas vão atrás de modas. As que realmente apaixonam-se por certa tendência, acabam por passar a vida a seguir esse caminho/actividade/hobbie. Neste caso concreto, gostar de música alternativa e mesmo de metal, era uma coisa muito da moda. A verdade é que as pessoas envelhecem e - quase sempre - por motivos pessoais e profissionais abandonam essas tendências. Os resistentes, os apaixonados, a partir de uma certa altura começam a ser poucos.
O que acho é que desde há uma década as tendências e as modas são outras, mesmo dentro da música, portanto os poucos músicos/produtores/amantes que vão aparecendo nestas gerações depois da minha, são poucos e são realmente os que gostam. É um nicho ainda mais isolado. Portanto, também não há público suficiente, ou pelo menos há muito menos público.

10. Sei que já actuaste na parte continental do país. Quais foram as diferenças mais notórias entre os dois cenários?
Foi em 2004 e 2005. Tendo sido em grandes meios urbanos - Porto e Braga - obviamente que notei diferenças. Até mesmo na receptividade a projectos estranhos e desconhecidos, como o nosso.
O momento mais marcante foi no antigo edifício do mítico Hard Club, em Gaia, até porque fomos a primeira banda açoriana a lá tocar! Sendo um concurso, estávamos rodeados de bandas do Porto e Gaia, mas quando começámos a tocar a malta do hardcore e do punk que lá estava não se envergonhou com o mosh e o slam. Isto às vezes nem acontece cá com amigos.

11. Qual a época em que o movimento esteve mais parado?
Início do milénio, claramente!
Houve uma altura que só haviam três bandas que tocavam esporadicamente: Manifesto, Bat n´Avó e Lithium. Os praienses Outrage também apareciam por vezes.
No liceu de Angra não havia uma banda que fosse (quando em 1996, por exemplo, lembro-me de serem mais de uma dezena), até ao aparecimento dos Paradigma, depois Resposta Simples. As bandas que apareceram nas primeiras edições do AngraRock ou eram formatadas só para a angariação de um lugar no pódio, ou eram tão desprovidas de atitude e garra que nunca mais se ouviu falar delas, salvo raras excepções.
Estamos a falar do auge do aparecimento de DJ´s aqui na ilha, entre 1999 e 2003, mais ou menos. Foi uma época em que não havia simplesmente concertos de rock. Nem percebo muito bem do que se queixam alguns músicos actualmente...

12. Achas que ainda existe público para este estilo como havia antes?
Não, pelas razões que apresentei há 3 perguntas atrás. Ou melhor, existe, mas numa moldura muito mais reduzida. Julgo que o rock em geral nunca morre. O metal também não. Mas isto é de épocas e nestes últimos 50 anos de rock houveram altos e baixos. É um género muito mutável, mas por vezes desactualiza-se. Os media fazem isso, desactualizam-no. Por vezes passo os olhos na MTV e assusto-me um pouco... "é isto que querem transmitir à juventude?". Tudo bem, apesar de achar que os gostos discutem-se, a verdade é que toda a música é válida, gostemos ou não.
O rock em geral vai sobrevivendo e muito bem. O metal será sempre para uma minoria em qualquer parte do mundo, mas na nossa realidade e pequenez às vezes pode ser angustiante.

13. Porque achas que existe sempre um número bastante razoável de bandas alternativas num lugar pequeno e fechado como este?
Pergunto: porque são os Açores um dos lugares do país com mais músicos e artistas?
Porque é a ilha do Pico o lugar de Portugal com mais músicos per-capita? Com mais filarmónicas?
Julgo que estas ilhas são óptimos locais de introspecção e criatividade artística. Não é só a natureza, o mar e a bruma. É as suas gentes, vivências e a grande necessidade de um encontro com o seu eu. Exactamente por estar isolado e com pouca oferta - comparativamente a grandes centros urbanos e/ou continentais - é que o ilhéu sente essa necessidade de se exprimir e desenvolver a sua estética. Seja música, pintura, escultura, fotografia, etc.
Os jovens não são alheios a isso, de todo. Pode ser inconscientemente, mas não são alheios.

14. Notas a mesma paixão por parte do público para com a música, ou julgas que a ingenuidade da altura ajudava nesse factor?
Acho que a paixão é a mesma. Quem gosta, gosta e pronto. Nem se explica muito. O sentimento que a música cria numa pessoa é, em meu entender, dos mais fortes que um ser humano pode sentir. Julgo que nenhuma outra arte terá tanto impacto no bem-estar de uma pessoa. É natural.
O que vejo actualmente nos concertos cá são jovens dedicados, fiéis e que vão aos concertos quase todos das bandas dos amigos e dos conhecidos. Sedentos (figurativamente e, se calhar, literalmente também ). E isto também era assim no meu tempo, nos anos 80 deverá ter sido e nos anos 70 idem aspas. Vai mudando a moldura humana, mas o feeling é o mesmo.

15. Como será o futuro da música alternativa na ilha? Caminhará para estilos mais confortáveis, ou para ramificações cada vez mais alternativas?
Entendo o que pretendes dizer com estilos mais confortáveis, no entanto não concordo muito com a expressão.
Vejamos, com a quantidade de informação que hoje se obtém com a internet, é muito mais fácil evoluir tecnicamente e musicalmente do que há 20 anos atrás. Ponto assente.
Por isso mesmo acredito que a música tem evoluído imenso cá na ilha. Miúdos que estão a tocar só há 6 meses já estão bem evoluídos tecnicamente e já compõem temas interessantes e se calhar bem maduros para a sua idade. É muito mais fácil aprender e criar com as novas tecnologias.
Portanto vejo o cenário criativo a evoluir em todos os géneros. Tanto numa vertente mais alternativa, como numa vertente menos alternativa, ou confortável como a chamas. Aliás, devo dizer, que alguns dos projectos mais interessantes, e de maior qualidade, que tem aparecido na Terceira, são dessa vertente menos alternativa.

16. Tens esperança que por cá alguém dê finalmente "o pulo" para a cena internacional?
Acho que temos artistas de nível internacional, prefiro colocar a questão nestes termos.
Mas para te responder directamente, sim, tenho.

17. Quanto a ti. Faz parte da tua lista de desejos expôr a tua música a novos contextos (nacionais ou internacionais), ou achas que não seria tão bem aceite?
A música - seja ela qual for - é sempre bem aceite se bem direccionada ao seu target.
Interessa-me sempre sujeitar o meu trabalho à opinião dos outros e não só aos conterrâneos. Com as redes sociais isso é facílimo! No entanto faço-o sempre com os pés assentes na terra e sem grandes perspectivas e intenções. Seria ingénuo se assim não fosse. Tinha essas ilusões quando tinha 16, 20, 23 anos... Neste momento faço-o por gozo, amor à camisola e como catarse, quase.

18. Achas que já há qualidade na música de cá para se debater nesses cenários?
Sim, como já afirmei.
Agora acho que os artistas - por mais qualidade que tenham - devem situar-se no seu meio e nas suas capacidades para realmente dar esse salto. Continuar a viver a par da insularidade vai inviabilizar muita coisa.
Mas poucos são os que arriscam, deixam empregos e as suas vidas - estou a lembrar-me dos Tolerance 0 - para tentarem a sua sorte em outras paragens, paragens essas em que a " concorrência" será feroz. Ou seja, se isto fosse fácil, tínhamos chegado lá todos.
E não basta ter talento ou um CD espectacularmente bem gravado. É preciso muito mais. É preciso todos estarem determinados a passar por provações pessoais, muito sacrifício, ter algum dinheiro e espírito aventureiro... Não acredito que nenhum artista insular consigo vingar num cenário internacional, ou mesmo nacional, continuando a viver cá e utilizando só a internet para divulgação do seu trabalho. Não é impossível, mas muito pouco provável.
No entanto temos artistas excepcionais.
Falando só da Terceira - e sabendo que vou-me esquecer de alguns, deixando já as devidas desculpas - vejo, por exemplo, os Anomally a tocarem em qualquer parte do mundo, ombro a ombro com os melhores; Vejo os October Flight já a rasgarem essa cortina; Vejo o projecto The Chamber a chegar lá perfeitamente; Vejo os Goma nos melhores palcos do país; Os Stream eram banda para qualquer palco do mundo; O Luís Bettencourt é um excelente músico em qualquer parte do planeta... Isto levaria tempo enunciar todos, qualidade não nos falta.

19. Quanto à descriminação por estilo. Por parte de eventos maiores, algo mudou?
Não, nem vai mudar.
Aliás, julgo que há uns 15 anos atrás havia menos preconceito, apesar de tudo, lá está, como afirmei no início desta entrevista, era moda, por isso até cediam grandes palcos a bandas de metal, por exemplo. Mas havia preconceito e julgo que haverá sempre.
Quem gosta de metal tem que conformar-se com isto: é um género incompreendido, por ser mais "ruidoso", de difícil audição e compreensão (a par do Jazz, deverão ser os dois géneros de música de maior dificuldade de audição e de execução, salvo óbvias excepções), raramente é orelhudo, ou seja, não existem refrões para o povão cantar, não é dancável...
E enquanto o público não aceitar este som - que não é sua obrigação, diga-se - nenhum promotor privado pode arriscar neste género de música. Não é rentável. Nem sequer consegue-se o break-even na maioria dos casos!
No entanto, no caso de promotores públicos, julgo ser dever desses disponibilizar as oportunidades equitativamente. Continua a não acontecer, infelizmente.
Em meios pequenos como o nosso, julgo que a melhor solução não é mandar a quatro ventos lamentos e indirectas como alguns músicos terceirenses fazem. Não só estão a "fechar portas" - das poucas existentes - como não resolvem o seu problema. Quer-se é soluções! Criem-nas.
O meu conselho é fazerem o que eu fiz durante anos: produção própria. As bandas se se juntarem e forem organizando eventos, todas vão tocar mais regularmente. Podem não ganhar um cêntimo, mas divertem-se, agitam a diversificação cultural na ilha, e resolvem o problema de só tocarem 2 ou 3 vezes por ano. A mim parece-me bem melhor do que limitarem-se a deixar milhares de euros em material numa sala a apanhar bolor, para ensaios religiosos 2 a 3 vezes por semana. Que não vão passar disso mesmo.
Arrisquem. Ousem. Não falem, façam!

20. Finalmente, últimas palavras ou algum ponto que gostasses de deixar?
Na minha última resposta já deixei algumas palavras que pretendia deixar aos músicos (chamar-lhe-ia mais um desafio), porque queria aproveitar esta última pergunta para me dirigir unicamente ao Grito Insular.
Devo dizer que é bastante motivador ver um grupo de jovens, dinâmicos e interessados, a ter uma iniciativa deste género. Não é fácil, sei-o porque o fiz durante 10 anos com o Musicofilia. Se não houver iniciativas editoriais deste género, ninguém - mesmo ninguém - dá o merecido destaque em qualquer OCS regional. Nada. Zero.
Lá está, mais uma vez, ter iniciativa. Não falar, fazer! Está a ser a vossa atitude e só posso congratular-me enquanto músico, produtor e apaixonado por música e pelas artes de palco.
Deixo os meus sinceros parabéns. Sejam imparciais, correctos, inteligentes e ousados.
Ah! E caguem na crítica gratuita. Vão ter muito disso, ignorem.
Bom trabalho camaradas e fogo à peça!

Entrevista: Pedro Santos

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